A CAIXA PRETA DO MINÉRIO DO AMAZONAS

Ora, poderia algum defensor do empreendimento ou da empresa argumentar: não somos transparentes porque ninguém assim o exige ou porque já há transparência (pode-se tomar como exemplo a publicação de balancetes anuais ou parcos dados no site da empresa) ou, com justificativa ainda mais forte, porque a empresa investe na questão socioambiental. Esta é de fato um bom argumento, pois há um relativo grau de comprometimento da organização com as questões ambientais e as compensações com as populações indígenas e repasse de grana para a prefeitura local.
Mas a pergunta se repete: por que ninguém fica sabendo disso tudo?
Os tempos são outros; as pessoas estão mais informadas; as informações correm mais rápido e – em tese – os órgãos de controle (ambiental, fiscais ou mesmo judiciais) estão mais preparados para a cobrança. Tudo em tese, é claro.
O exemplo a ser seguido?
Vejamos o exemplo mais próximo no vizinho Pará. Uma olhada no sitio eletrônico do empreendimento minerário no município de Juruti – embora de maior monta que do Amazonas- , pode mostra o quanto o setor de relações públicas da Mina de Pitinga parece engatinhar e viver ainda na década de 80 quando se iniciaram as suas atividades (ou na melhor das hipóteses meados de 90).
A empresa ALCOA - responsável pela mineração paraense – disponibiliza em seu sitio eletrônico um calhamaço de dados interessantes sobre a mina no município: lucro auferido, royaties repassados ao município, atividades de recuperação ambiental das áreas onde se retiram o minério (detalhadamente), folhetins, cartilhas, informes gerais etc (www.alcoa.com.br ).
Ao clicar no www da similar em Pitinga – a Mineração Taboca S.A, diga-se, aliás, hoje controlada por uma empresa do Peru - a coisa muda de figura (http://www.mtaboca.com.br/port/empresa/perfil.asp). O site é pobre, não apresenta nada de novidade ou nenhum dado aprofundado. Tirando alguns números soltos – e sem conexão explicativa ou que valorize sua razão de existir - não se sabe, por exemplo, qual a validade das licenças ambientais. Teriam licenças eternas? Claro que não. E o que falar dos lucros, quantidade de minério retirados do subsolo e de quanto Presidente Figueredo – o município que hospeda o empreendimento - recebe em compensação? Já seria querer de mais.
Um dado contraditório é que a empresa, segundo seu site, possui certificação e qualidade ISO 9001 – que garante que a organização preza pelo respeito aos procedimentos de maneira a melhorar a gestão dos seus negócios. Ora, uma olhada rápida nos critérios desta certificação mostra que é exatamente a imagem da empresa um dos seus pilares (?). Entretanto, devamos reconhecer que, neste caso, é uma questão de como a organização que certificou a Taboca com a ISO procedeu (este selo é apenas um indicativo, e não garante necessariamente, a qualidade naquilo que o selo teoricamente sinaliza).
Engraçado é que mesmo o que tem de bom por lá não é mostrado pela empresa. Pitinga tem números e imagens interessantíssimos que podem ser mostradas á população. Há resultados importantes sobre a vila – uma das mais organizadas mantidas por uma empresa no Estado– e indicadores sociais que parecem só melhorar (veja no endereço a seguir algumas imagens da vila http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=948216)
Contra-argumentação
Mais uma outra justificativa razoável em comparação a atividade de Juriti – e que amenize a situação - pode ser o fato de lá não haver investimentos diretos do poder público. Em Pitinga o dinheiro é basicamente privado. Verdade. Aliado a este fator, tem-se a legislação que atualmente é muito mais rígida com relação a atividades de impacto socioambiental sobretudo na Amazônia do que era há 25 anos. Na década de 80 mal se falava em reparação ambiental, menos ainda em pagamento ou compensação a populações atingidas. Era coisa de “ongueiro” (aliás, poucas Ongs levantavam bandeira neste sentido à época). Assim, em princípio, daria-se “o direito” à Taboca de não ter que prestar conta de nada a ninguém, certo? Talvez.
Mas tem uma ponto importante: Pitinga goza de incentivos fiscais, o que – por definição – significa dinheiro que deixa de entrar nos cofres públicos. E ai? Bem, em tempos de valorização do que se chama por ai de “responsabilidade socioambiental”, uma corporação do porte da Taboca não pode dar-se ao luxo de tanta desleixo.
O futuro pede mudanças. Será assim que veremos o trato com a mineração do caulim e potássio (minérios que recém descoberto na região de Itacoatiara / Nova Olinda do Norte /Autazes e Itapiranga) da mesma forma que (não) vemos no estanho de Pitinga? Certamente não. Apesar da expertise dos órgãos de controle no Estado sejam incipientes – em termos de atividade minerária. Mas fica a lição e o recado: a população não é mais a dos anos 80.
*Ronaldo Santos é engenheiro-agronomo do quadro permanente do INCRA,AM e escreve neste endereço. E-mail: ronaldo.santos@mns.incra.gov.br
Nenhum comentário:
Postar um comentário