Sem nenhuma surpresa para quem acompanha política no Brasil, o todo poderoso senador José Sarney (PMDB-AP), presidente do Senado da República, resolveu assomar ontem a tribuna e durante uma hora, com o poder da oratória que tem, deitou e rolou falando de suas virtudes como cidadão e como político.
Vi e ouvi tudo pela TV Senado e apesar da grande experiência que tenho em coberturas políticas, quase me deixei enganar e quando dei por mim, estava me emocionando. Por pouco ,não pensei que o senador Sarney era um santo. Felizmente isso não aconteceu.
Teimoso como uma rocha e muito vaidoso, já se esperava que o homem não abandonasse o Poder, até porque, continua sendo meio blindado pelo Palácio do Planalto, pensando nas eleições do próximo ano, tem uma tropa de choque no Senado com o objetivo de protegê-lo, abrindo possibilidades para que ele continue como presidente da Casa, mesmo sabendo que ele não tem mais condições moral e política para permanecer administrando a Casa.
Raposa velha em política e com larga experiência acumulada nos palanques e tribunas, Sarney falou para um plenário lotado, isso mesmo, plenário lotado e tentou desqualificar uma a uma todas as denúncias contra ele que foram encaminhadas ao Conselho de Ética.
Com a postura dos “justos”, disse que estava sendo vitima de uma campanha para desestabilizá-lo, mas prometeu enfrentar de pé os seus opositores, ficando até o final no mandato para o qual foi eleito pelos próprios senadores.
Na emoção do bem articulado discurso, José Sarney, que sabe que poderá contar com o apoio do Palácio do Planalto, por sua importância dentro do PMDB, o maior partido político do País e pelas composições político-eleitorais, prometeu ir à luta contra os seus adversários Foi aí que resolveu meter a imprensa no meio da história, garantindo que as denúncias são inconsistentes e todas baseadas em matérias de jornais. Será que os jornalistas inventaram todas essas denúncias? A final, perguntar não ofende.
Falou da sua probidade como cidadão e homem público e se valeu da sua grande biografia política para dizer que está sendo injustiça e prometeu perseguir a Justiça e provar que nada do que estão dizendo é verdade.
Esperto, aproveitou ainda o momento da emoção do discurso com casa cheia, para prometer mudanças administrativas, melhorando consideravelmente o seu funcionamento que precisa voltar a ser olhada com admiração e respeito pelo povo brasileiro.
O plenário, apesar de tudo, ouviu com respeito e sem interromper o longo discurso, que certamente não convenceu mais da metade dos senadores, inclusive da sua bancada e aliados, mas ainda assim, pode fazer a sua defesa sem nenhuma interferência, o que no meu entendimento foi bom, até porque, todos tem o direito de defesa e Sarney usou de forma legal esse direito. Isso não quer dizer, que senadores e povo, tenham acreditado nas suas falácias.
O discurso não acabou com a crise. Ela ainda vai durar algum tempo e o seu desdobramento, dependerá em muito, do comportamento do Conselho de Ética, dominado pela bancada governista e esperamos que o seu desempenho seja verdadeiramente ético.
Invocando a história e quase plagiando D. Pedro I, quando queriam levá-lo quase a força de volta a Portugal, quando o Brasil buscava a sua independência política e administrativa, bradou a histórica frase: “Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, diga ao povo que fico”. Isso ocorreu no longínquo 9 de janeiro de 1822 e ficou conhecido na história como O Dia do Fico.
No dia 5 de agosto de 2009, o senador José Sarney, talvez se lembrando desse momento histórico da vida nacional, para desespero dos seus adversários, alívio do Planalto e tristeza para o povo, não bradou, mas deve ter pensado na seguinte frase: ”Não sei a quem interessae ou não, mas digam a todos, que fico na presidência do Senado”.
*Osny Araújo é jornalista e analista político.
e-mail: osnyaraujo@bol.com.br

Nenhum comentário:
Postar um comentário